A faculdade mediúnica é um fator existencial do ser humano. Não existe ação mediúnica pura e simplesmente num dia determinado, numa sala específica e em horário predeterminado. Todos somos médiuns, ostensivos ou não, vinte e quatro horas por dia, pois, como nos ensinam os Espíritos, até fora do corpo, no desdobramento natural e diário motivado pelo sono, exercemos a faculdade que possuímos.
Tenho pra mim que hoje se deve pensar melhor nesta realidade, inclusive para uso mais profícuo da condição mediúnica, com o propósito de incorporar mais qualidade à existência. Muitos poderão ter arrepios de horror ante a idéia de se usar a mediunidade de forma pragmática. Todavia, é bom que esses sensíveis beatos descubram que isto acontece independentemente do querer. Exemplificando: um amigo meu, espírita e médium, estava em seu consultório atendendo um paciente. Fez os exames necessários e interpretou os sintomas de determinada forma, medicando-o e dando por encerrada a consulta. Quando o doente saía, meu amigo escutou uma voz interior de sua mente, que dizia: “Não poderia ser apendicite?”. Chamou imediatamente de volta a pessoa e, examinando-a com mais cuidado, de acordo com o sugerido por algum amigo espiritual, verificou que havia cometido um grave erro de avaliação. O aviso havia sido correto. Internado o paciente e feita a cirurgia, verificou-se que o apêndice estava a ponto de supurar, mas, por sua posição não comum, os sintomas eram mascarados como uma síndrome hepática ou de vesícula, não me recordo bem.
Ora, situações semelhantes ocorrem diariamente, tanto explicitamente, como no caso examinado, quanto implicitamente, por via intuitiva, por todo o globo terrestre nos diversos campos da atividade humana. Logo, é chegado o momento de se estudar a mediunidade como uma função vital, de uso sistemático no cotidiano. Assim, ela será desmistificada, perdendo a falsa categoria de “dom espiritual” e tornando-se mais um dos processos mentais que usamos normalmente. Isto facilitará, em muito, seu desenvolvimento, pois ela é fundamental para a existência.
Seja qual for a situação em que nos encontremos, bem como o que estivermos a fazer, o processo mediúnico estará presente, com Espíritos nos influenciando para o êxito ou derrocada de nossa ação. Na igreja ou no prostíbulo, entre santos ou marginais, a faculdade mediúnica proporciona que os iguais se liguem pelos seus mecanismos ainda desconhecidos. A lei da afinidade une os iguais do plano da alma liberta com os do mundo material, gerando atitudes ou empreendimentos de cunho elevado ou inferior.
Estudada por este prisma, a mediunidade em breve se tornará instrumento normal no labor diário de todos.
Com a difusão necessária da realidade do mundo espiritual e sua influência permanente sobre o mundo físico, conseguir-se-á vencer a “educação da negatividade”, que impede uma expansão significativa da mediunidade entre as criaturas. Chamo de “educação da negatividade” aquela que reprime qualquer percepção paranormal, tanto nas crianças quanto nos adultos, de um lado pelo uso do autoritarismo coercitivo e, do outro, pela repressão desmoralizante do deboche e do achincalhe. Estes procedimentos são responsáveis diretos por não haver um bem maior contingente de médiuns capazes de receber objetivamente os pensamentos espirituais, de forma consciente e existencialmente produtiva.
Por outro lado, é preciso combater a postura dos que pretendem fazer da mediunidade uma faculdade sagrada a ser ativada em meio aos iniciados, nos sagrados mistérios que só existem em suas mentes. É claro que o exercício mediúnico como fator de estudo e investigação da dimensão invisível requer ambiente adequado, como o salão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, onde se reúnam grupos voltados para este tipo de trabalho. Mas que também se tenha consciência de que os médiuns, saindo dali, continuarão médiuns durante todo o tempo, no cotidiano de suas existências.
Os intermediários dos Espíritos não são oráculos divinos nem porta-vozes dos demônios, mas simples seres humanos, falíveis, e muitas vezes carregando pesados fardos de erros do passado, em tarefa de aprendizagem e recomposição espiritual. Nem devem ser “patrulhados” cruelmente nos episódios comuns da existência, nem endeusados como arautos dos seres celestiais. As mensagens que transmitem devem ser analisadas pelo critério do bom senso, e aceitas ou rejeitadas de acordo com resultados lógicos a que se tenha chegado. Mas que se não lhes falte com a devida fraternidade da orientação amiga, para que venham a crescer em sabedoria e espiritualidade. Por nossa vez, médiuns que em geral somos de faculdades incipientes, procuremos aprimorar o comportamento para sermos, a cada instante, através da mediunidade comum de intuição e/ou inspiração, intermediários do bem onde quer que estejamos.
Djalma Argollo, Salvador, outono de 1999.
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